Mostrando postagens com marcador Cheiro de livro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cheiro de livro. Mostrar todas as postagens

4 de fevereiro de 2016

[Resenha] Combo: Cemitério dos Livros Esquecidos



Tudo começou quando, depois de muito insistir, minha mãe me convencera a ler A Sombra do Vento, romance escrito pelo autor espanhol Carlos Ruiz Zafón. "Dê uma chance, tenho certeza de que você vai gostar", dizia ela, ignorando meus grunhidos de reclamação e indiferença. Até então eu não havia sido uma grande fã de livros - muito pelo contrário: fugia deles. Mas foi naquele momento de fraqueza, ao qual sou infinitamente grata, aquele instante em que sucumbi à tentação e às insistências de minha mãe e iniciei a leitura da obra, que eu soube que minha vida nunca mais seria a mesma: algo dentro de mim, bem fundo em minha alma, havia mudado para sempre. Daquele momento em diante, A Sombra do Vento passaria a ser não só o meu livro preferido da vida, mas o livro que me devolveu à vida (sim, com crase: eu é que voltei à vida, e não o contrário), o livro que me mostrou um universo de magia até então muito pouco explorado: o universo da literatura. E como se não bastasse, mais tarde, relendo a obra, descobri que o livro tratava, ainda que pouco, de um assunto que muito me interessa, para dizer o mínimo: a arte de editar um livro. Pois é, estudo Editoração. Ah! Além de tudo, uma das personagens principais tem meu nome, Beatriz <3

À época eu havia vivenciado por volta de 14 primaveras e lido apenas alguns livros, muito pontuais, dos quais a leitura de apenas um ou outro havia se dado por puro prazer. Paradoxalmente, desde os oito anos, quando descobri em mim o que acredito ser um talento inato, um dos meus maiores prazeres era escrever. Escrevia poemas, diários, redações e até músicas. No entanto, desde a indicação de minha mãe, gradualmente comecei a ler mais, simplesmente porque tinha vontade. Prezo muito pela qualidade das leituras que faço, e, como o tempo, essa criatura brincalhona e cruel, parece que encurta conforme fazemos anos, nunca fui capaz de ler tanto quanto gostaria - mas quem o é, não é mesmo?    

Quanta ladainha. 

O que eu realmente queria dizer é que o despontar desse ano de 2016 trouxe consigo a releitura de A Sombra do Vento e a leitura de outros dois livros do Zafón, ambos também pertencentes à série Cemitério dos Livros Esquecidos: O Prisioneiro do Céu e O Jogo do Anjo. E resolvi resenhar cada um dos três livros. Com a possibilidade de haver spoilers.

"Cada livro, cada volume que você vê, tem uma alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram, que viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro troca de mãos, cada vez que alguém passa os olhos pelas suas páginas, seu espírito cresce e a pessoa se fortalece. "



Título Original: La Sombra del Viento
Editora: Suma de Letras
Páginas: 399
Gênero: Mistério/Drama/Romance
Ano: 2004
ISBN: 978-85-6028-009-4
♥*


Barcelona, 1945. Daniel Sempere tem apenas 11 anos e vive com seu pai, um homem calmo e quieto, em um modesto apartamento na rua Santa Ana em cima da livraria da família, um estabelecimento bastante especial, dedicado a edições raras e de colecionador. Certa manhã, Daniel acorda desesperado por não se lembrar do rosto de sua mãe, a quem perdeu quando tinha quatro anos. Para animá-lo, o sr. Sempere decide levar o garoto para conhecer um lugar novo, sobre qual ele não poderia contar a ninguém, nem mesmo ao seu melhor amigo, Tomás Aguilar. Tratava-se do Cemitério dos Livros Esquecidos, uma biblioteca labiríntica e gigantesca, localizada nas masmorras de uma Barcelona esquecida, onde havia milhares de livros eternamente salvos. De acordo com as regras do local, cada novo visitante e detentor do segredo tinha o direito de levar consigo qualquer livro que desejasse, desde que se comprometesse a cuidá-lo com muito carinho. 

Daniel escolhe para si A Sombra do Vento, escrito por Julián Carax, e devora o livro nas horas seguintes. Curioso por saber mais sobre o misterioso autor e para ler outras de suas obras, o garoto pede ajuda ao pai, que o leva para conversar com um amigo livreiro, o elegante e pretensioso Gustavo Barceló, o qual se mostra absolutamente interessado em adquirir a obra que Daniel levava consigo. Frustrado diante de suas tentativas fracassadas de comprar a obra por preços exorbitantes, o livreiro passa a sentir certo respeito pelo jovem rapaz, tão certo de seu compromisso com o livro, e o convida para um encontro na Biblioteca do Ateneo, onde ele, o livreiro, lhe contaria tudo o que sabia sobre Julián Carax. 

"Os livros são espelhos: neles só se vê o que possuímos dentro."

Nesse encontro, Daniel, conhece a sobrinha de Barceló, Clara, uma jovem de aproximadamente 20 anos, linda sedutora e cega. Impressionado com a moça, ele se oferece para ler para ela trechos de A Sombra do Vento no dia seguinte, após o colégio. As visitas à casa de Barceló passaram a ser constantes, quase que diárias, durante um período de quatro anos, e, inevitavelmente, a paixão que Daniel sentira por Clara aumentava a cada dia, a ponto de dar-lhe de presente o seu exemplar do livro que tanto adorava.     

Por duas vezes durante esse período, Daniel percebeu estar sendo observado por uma silhueta que mais lhe parecia uma sombra: um homem vestido de preto, com uma das mãos metidas no bolso e a outra segurando um cigarro, o rosto desfigurado por uma máscara de queimaduras e dor. Coincidentemente - ou não -, era exatamente igual a um personagem de A Sombra do Vento, Lain Coubert, o próprio diabo. Em um de seus encontros, quando Daniel já estava com mais ou menos 16 anos, a figura misteriosa dissera ao rapaz que desejava comprar, pela quantia que fosse, o seu exemplar do livro de Julián Carax, um dos últimos livros do autor ainda salvos... para queimá-lo. 

Cada vez mais intrigado, Daniel se entrega a um mundo de segredos e mistérios para tentar descobrir mais sobre o seu autor favorito e sobre o desaparecimento de quase todos os exemplares de seus livros publicados. Para isso, conta com a ajuda de seu fiel amigo Fermín Romero de Torres, um homem com um passado doloroso e inacreditável, por quem Daniel muito se afeiçoa e a quem convida para trabalhar na livraria do pai. Também não faltará ajuda de Gustavo Barceló e de Beatriz Aguilar, irmã do amigo Tomás, com quem Daniel passa a ter um relacionamento um tanto complicado.

"Quanto mais vazio está, mais rápido o tempo passa. As vidas sem significado passam ao largo como trens que não param na estação."

À primeira vista, o enredo pode até parecer simples, mas o que engrandece e enobrece a obra é a forma, o como. Os personagens, embora não sejam os psicologicamente mais bem construídos que eu já vi, são explorados na medida certa e arquitetados para serem apaixonantes; não foram se formando ao acaso, mas todos, até mesmo os secundários, contribuem infinitamente com o alto grau de detalhamento da narrativa, o que corrobora na construção de uma estória sem furos. Aqui, até mesmo a cidade de Barcelona se torna uma importante personagem da trama. Com passagens detalhadas e impressionantes por pontos importantes da cidade, Zafón nos faz imergir numa atmosfera muito realista do enredo, causando-nos a sensação de realmente conhecermos os lugares descritos. Tratando-se de uma cidade espanhola, isso se torna ainda mais louvável, na medida em que eu, particularmente, não tenho quase nenhum repertório para conseguir imaginar Barcelona com qualquer ajuda que não a do autor. Acredito ser impossível não se apaixonar pelos personagens, pelos cenários descritos e pela narrativa, que é mais uma poesia em forma de prosa.

Mistério, humor, romance, drama. É inacreditável o que o autor consegue fazer em uma única obra. Carlos Ruiz Zafón escreve com maestria e ganhou um lugar especial em meu coração logo nas primeiras linhas, logo que o conheci. Depois de seis anos desde a primeira leitura, reli meu livro preferido com o peito cheio de medo de me decepcionar, confesso, mas tudo o que senti foi uma emoção muito forte durante todo o tempo de leitura, comprovando a cada linha que A Sombra do Vento é e sempre será não só o meu livro preferido, mas também o livro mais especial da minha vida. Zafón não escreve: ele dá vida e poesia às palavras.

* * *

   
Título Original: El Prisionero del Cielo
Editora: Suma de Letras
Páginas: 246
Gênero: Mistério/Drama/Romance
Ano: 2012
ISBN: 978-85-8105-073-7


O Prisioneiro do Céu é o terceiro livro da coleção Cemitério dos Livros Esquecidos mas, cronologicamente, é quase como uma sequência do primeiro, A Sombra do Vento, e uma espécie de ponte para o que o segundo livro publicado, O Jogo do Anjo, muito embora esse último se passe anteriormente aos outros dois. Teoricamente, os livros são não conseguintes e, portanto, é possível lê-los na ordem que se queira. Até certo ponto isso é verdade, no entanto, a leitura de O Prisioneiro do Céu e o envolvimento com essa obra podem ficar prejudicados sem a leitura prévia de A Sombra do Vento, já que os personagens principais, inclusive, são os mesmos. Isso não acontece com o O Jogo do Anjo que, embora se passe na mesma Barcelona maldita e possua um enredo que se cruza aos outros dois, apresenta personagens novos e segredos novos. 

"As pessoas de alma pequena sempre tentam apequenar os demais."

Daniel Sempere e Fermín Romero de Torres, amigos de longa data e personagens apaixonantes, são novamente o centro deste enredo. Grosso modo, o livro nos relata a história da vida de Fermín até o momento em que encontra Daniel e explica, entre outras coisas, a ocasião da morte da mãe de Daniel, Isabella. A narrativa é intercalada entre o presente, contado por Daniel, e o passado, contado por Fermín, cujos segredos mais obscuros ficam ameaçados diante da visita inesperada de um fantasma de seu passado, arrancando-lhe lembranças que o fazem tremer de dor e medo. Aqui, vamos descobrir que o feliz encontro entre as vidas de Daniel e Fermín está longe de ser mera coincidência.  

O cenário de uma Barcelona devastada pela Guerra Civil Espanhola e ameaçada pela Segunda Guerra Mundial justificam um enredo envolto de jogos políticos, autoritarismo e brigas por poder, detalhes de extrema importância para conferir verossimilhança à narrativa  

Mais uma vez, com maestria, Carlos Ruiz Zafón nos transporta para uma Barcelona maldita, fazendo-nos sentir raiva, medo, angústia, dor juntamente com seus personagens, transbordando os sentimentos da página do livro para dentro de nós, leitores. A escrita de Zafón não é outra coisa senão peculiar. Escolhe um léxico devastador, constrói frases como ninguém, arquiteta personagens únicos, palpáveis e reais, sempre numa atmosfera misteriosa, de tirar o fôlego

        "O mundo é muito pequeno quando não se tem aonde ir."

Encontrei uma leitura mais fácil e fluida que a de A Sombra do Vento, mas logo percebi que não deveria me deixar enganar: cada pequenino detalhe é muito importante e não pode passar despercebido se quisermos entender bem o próximo livro, O Jogo do Anjo.      


                                                                                * * *
  
Título Original: El Juego del Ángel
Editora: Suma de Letras
Páginas: 410
Gênero: Mistério/Drama/Romance
Ano: 2008
ISBN: 978-85-6028-030-8




David Martín teve uma infância triste e solitária: abandonado pela mãe, passou a viver com um pai que, analfabeto e bruto, não compreendia nem aceitava a paixão do menino pela literatura. Aos 17 anos passou a trabalhar no jornal La Voz de la Industria, onde escrevia a editoria de polícia e onde seu pai havia trabalhado muitos anos como porteiro e, também, onde fora assassinado a balas por engano. Com a ajuda do bondoso dom Pedro Vidal, funcionário influente no jornal e em toda Barcelona, David ganhou a oportunidade de escrever crônicas no jornal, que se chamavam Os Mistérios de Barcelona, as quais não demoraram a cair nas graças do público - e dos editores. Martín recebeu, então, uma proposta de uma dupla de editores, Barrido e Escobillas, para escrever uma série melodramática, intitulada A Cidade dos Malditos, a ser publicada mensalmente, sob o pseudônimo de Ignatiu B. Samson. David Martín aceitou e, assim, tornou-se uma mercenário, escrevendo por dinheiro o que não lhe agradava. 

Com o dinheiro que recebia, o rapaz pode sair da pensão repugnante em que vivia e alugou uma casa que sempre lhe chamara a atenção e que sempre desejara ser sua: a casa da torre, como era conhecida. O lugar ainda guardava os pertences de seu último dono e possuía uma atmosfera, no mínimo, assustadora. Era possível sentir alguma coisa ali, a qual era sempre ignorada por David. Com o passar do tempo, o protagonista começou a passar mal com muita frequência, fato que ignorou durante muito tempo até se convencer de que era preciso procurar um médico. Quando o fez, foi diagnosticado com um tumor no cérebro e recebeu a notícia de que não teria mais que um ano de vida. 

À essa época, Martín já recebia há algum tempo uma correspondência misteriosa de um suposto e misterioso editor de Paris, Andreas Corelli, que apresentava grande interesse em fazer negócios com David. Quando finalmente se encontram, David Martín informa ao editor que não pode aceitar nenhuma oferta, pois o contrato que assinara com seus editores previa cinco anos de serviço exclusivo, ao que o homem replica dizendo que seus advogados encontrariam uma brecha. O rapaz acaba pernoitando na casa de Corelli, já que se sentia muito mal devido à doença. Sonha que passava por uma cirurgia no cérebro para retirar o tumor e quando acorda, sente-se como um novo homem: as dores, as náuseas e o mal estar haviam sumido e sua aparência é de um homem saudável. Curiosamente, naquela mesma noite, o prédio onde ficava estabelecida a editora para a qual David trabalhava pegara fogo e seus chefes morreram, de modo que o contrato já não tinha mais validade.

A partir de então os dois homens passam a se encontrar regularmente para acertar os detalhes do serviço. Andreas Corelli encomenda a Martín um livro, no qual ele deveria descrever uma nova religião, inventada por ele para o editor. No entanto, deveria ser uma narrativa envolvente, capaz de fazer as pessoas matarem por aquele ideal. Com o pagamento de 100 mil francos franceses, David acaba por aceitar a oferta e iniciar o trabalho.       

"A inveja é a religião dos medíocres. Ela os reconforta, responde à angústia que os devora por dentro."

Amigo do sr. Sempere, dono da livaria Sempere e Filhos, dedicada a edições raras e de colecionador, David Martín é levado para conhecer o Cemitério dos Livros Esquecidos, biblioteca labiríntica e gigantesca que guardava milhares de livros abandonados. Seguindo o protocolo do lugar, já que o visitava pela primeira vez, David escolheu um volume para levar consigo. Perdendo-se em meio ao labirinto, ele escolheu um manuscrito que se intitulava Lux Aeterna, de D.M., as mesmas iniciais que a dele, e cujo conteúdo era religioso.

Curioso, David leu-o muito atentamente até perceber que o livro havia sido escrito na mesma máquina de escrever que ele utilizava e que já estava na casa quando ele a alugou. A partir de então, o protagonista decide descobrir quem morara naquela casa antes dele e por que havia escrito aquele livro. Assim, David Martín se vê no meio de uma teia de segredos e mentiras e conforme vai seguindo os rastros encontrados, pessoas ligadas àquela história vão morrendo. E ele é o principal suspeito.   

Mais uma vez Carlos Ruiz Zafón surpreende com sua escrita peculiar e majestosa. Sabe construir como ninguém uma narrativa cheia de mistérios, segredos e mentiras; personagens que fazem jus ao conteúdo da obra, densos, bem explorados, enigmáticos; cenários de sua Barcelona maldita que nos faz conhecer uma cidade nunca antes visitada. 

"Entrei na livraria e aspirei aquele perfume de papel e magia que, inexplicavelmente, ninguém ainda tinha tido a ideia de engarrafar."

Misterioso até o fim, Zafón me confundiu como nunca nesse livro. Quando tinha certeza da loucura do protagonista, algum detalhe me fazia perceber que algo não se encaixava. O livro, dependendo da perspectiva, pode ser só um mistério muito bem construído, ou pode ir além e trazer algo de sobrenatural também; nesse caso, temos de acreditar que David Martín não estava louco. O grande problema aqui é uma questão muito sutil: o próprio David é quem conta a história. Então como saber em que acreditar? E é aí que me sinto ainda mais confusa, porque alguns detalhes de O Prisioneiro do Céu, do qual David Martín também é personagem, não batem com O Jogo do Anjo. Uma parte do desfecho da vida do próprio protagonista e as causas da morte de Isabella, mãe de Daniel Sempere, são diferentes nos dois livros. E O Jogo do Anjo termina assim, sem dar maiores explicações sobre essas pequenas contradições - feitas de propósito, acredito eu - e sem esclarecer grande parte do mistério, finalizando com uma pseudo-explicação, digamos, poética. 

Há, inclusive, uma frase bastante recorrente não só nesse romance, mas também em Marina, do mesmo autor, que nos põe em dúvida: "só se pode lembrar do que nunca aconteceu". Só o que eu posso dizer é que não sei o que sentir e que espero muito que o quarto livro da coleção realmente seja publicado e nos explique essas amarras que ficaram soltas.     

* * *

Beijos com carinho!

8 de agosto de 2014

[Resenha] A Brincadeira - Milan Kundera





 Título Oiriginal: La Plaisanterie
Editora: Selo Companhia de Bolso
Páginas: 350
Gênero: Romance
Ano: 2012 (primeira publicação: 1967)
ISBN: 978.85.35.92117.5
Minha Nota: EstrelasEstrelasEstrelasEstrelasEstrelas
Onde Comprar: SUBMARINO | SARAIVA | CULTURA
 

Ludvik decide voltar à Morávia, sua cidade natal e onde viveu grande parte de sua juventude. Durante esse breve retorno ele vai se redescobrir e, de certa forma, fazer as pazes com o seu passado, com o seu "eu" antigo e com toda a sua história, drasticamente mudada pelo destino quando ele ainda era um estudante universitário. Na realidade, o livro conta a história de vida do protagonista: as reviravoltas de seu destino, atitudes impensadas que o levaram aonde está, suas complexidades, amores, medos e angústias.  A narrativa se dá em primeira pessoa e o livro é dividido em sete partes, em que a narrativa se alterna entre quatro personagens importantes; Ludvik conta a maior parte delas. O recurso de narrativas a partir de pontos de vistas diferentes utilizado por Kundera foi essencial para que houvesse uma compreensão real de Ludvik, o que não seria possível se o livro fosse todo contado pelo próprio personagem.

O protagonista era um jovem estudante engajado na política, afiliado ao Partido Comunista e um tanto excêntrico. Adorava estudar e idolatrava o Partido. Mas seus colegas o consideravam um tanto individualista e irônico; diziam que Ludvik usava, para cada situação, uma máscara diferente. Ele mesmo começa a concordar com tal pensamento. No entanto, tudo caminhava relativamente bem, quando uma simples brincadeira de sua parte foi o suficiente para mudar todo o curso de sua história. Querendo caçoar da namorada Marketa, a qual nunca entendia brincadeiras e piadas, ele lhe escreveu um bilhete que dizia "O otimismo é o ópio do gênero humano! O espírito sadio fede a imbecilidade! Viva Trótski!". Obviamente seus colegas da universidade e do Partido não compreenderam a brincadeira e Ludvik se viu afastado de seu cargo e de seus estudos, acusado de ser um verdadeiro traidor, indo contra toda a ideologia do Partido Comunista; e mais: teve de ficar tempos no exército para onde iam os "traidores" e não entusiastas do Comunismo.


E é aí que Ludvik se torna um homem amargo e rancoroso, incapaz de entender que o que ele fez nunca poderia ter sido interpretado como uma simples brincadeira, dada a situação e o contexto. Mas é aí também que ele encontra um amor e vive todas as suas alegrias e tristezas. Todo o enredo do livro nos mostra como a sede por vingar-se daqueles que o expulsaram do Partido foi a responsável por determinar todo o rumo de sua vida e como os fantasmas do passado, se não compreendidos, podem se transformar em verdadeiros obstáculos na vida presente. Desse modo, trata-se de uma leitura bastante reflexiva, com uma análise profunda sobre a nostalgia - principalmente do que não aconteceu - e sobre a relação passado-presente, em que acompanhamos um Ludvik já adulto relembrando os fantasmas de seu passado e tentando um acerto de contas com eles, tentando se compreender, para que finalmente pudesse viver em paz consigo mesmo e com o Universo, aceitar o destino de sua vida e aprender a ser feliz com isso.

A primeira vez em que ouvi falar de Milan Kundera foi no início desse ano, quando meu professor de Teoria da Comunicação nos comunicou de que a avaliação semestral teria como tema o livro A Brincadeira, desse mesmo autor. Eu não sabia bem o que esperar da leitura; nunca havia ouvido falar naqueles nomes e também nunca havia lido nada do Leste Europeu. Bom, eu adoreeeei a leitura! Adorei a narrativa, adorei o enredo, adorei as mensagens reflexivas que o livro passa (pra variar!), adorei as personagens tão bem construídas e tão psicologicamente bem exploradas... Fiz um mooooonte de marcações com post-its, não só de passagens bonitas, mas também de tudo o que tinha a ver com a matéria estudada durante o semestre (e não foi pouca coisa, não!). Essa leitura é, em si só, uma verdadeira bagagem cultural, na medida em que se trata também de uma obra que aborda, em grande parte, a cultura popular tcheca (o que, confesso, pode ser bastante cansativo em alguns pontos). E, não podia deixar de dizer, eu AMO as edições da Companhia de Bolso! Que coisinhas mais lindas e delicadas e muito amor esses livros, gente! Sou simplesmente apaixonada pelo projeto gráfico deles, principalmente, pelo tamanho de bolso ideal.

"Nós vivíamos, Lucie e eu, num mundo devastado; e porque não soubemos nos apiedar dele, dele nos desviamos, agravando assim a sua infelicidade e a nossa. Lucie, tão amada, tão mal-amada, foi isso que você veio me dizer no fim desses anos? Pleitear a compaixão por um mundo devastado?"

Sobre o autor: "Milan Kundera é um dos maiores escritores do pós-guerra. Nascido em Brno, na região da Morávia, antiga Tchecoslováquia (hoje República Tcheca), ele conquistou fama internacional com o romance "A Brincadeira" (1967), que lhe rendeu a proibição de publicar em seu país e a perda da nacionalidade. Seus romances geralmente tratam de escolhas e decepções. Em seus livros é recorrente a crítica ao regime comunista e à ocupação russa de seu país em 1968. Em 1970, o escritor publicou o romance "Risíveis Amores". Refugiou-se em Paris em 1975, onde lecionou a disciplina arte do romance na École des Hautes Études en Sciences Sociales. A partir de 1980, quando se naturalizou francês, passou a se dedicar à tradução para o francês de seus textos anteriores, escritos originalmente em tcheco. Com "A Insustentável Leveza do Ser" (1984, adaptado para o cinema em 1987), tornou-se conhecido mundialmente. Em 1987, recebeu o Prêmio Nacional das Letras da Áustria. Outras obras importantes do autor são "O Livro do Riso e do Esquecimento", "A Valsa do Adeus", "A Imortalidade", "A Lentidão", "A Vida Não É Aqui" e "A Cortina"."


Quem quiser me acompanhar no Skoob é só clicar aqui.

Beijos com carinho! 


1 de agosto de 2014

[Resenha] A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert - Jöel Dicker

 Título Original:La vérité sur l’affaire Harry Quebert
Editora: Intrínseca
Páginas: 576
Gênero: Mistério
Ano: 2014
ISBN: 9788.5.805.7511.8
Minha Nota: EstrelasEstrelasEstrelasEstrelasEstrelas
Onde Comprar: SUBMARINO | SARAIVA | CULTURA
 

Marcus Goldman está sofrendo da doença dos escritores: após o enorme sucesso de seu primeiro livro, que logo se tornou um best-seller, ele não consegue escrever uma linha sequer. Seu agente e seu editor estão cobrando um novo livro, cujo prazo para a  entrega está se esgotando. Marcus não faz ideia do que escrever e se vê num bloqueio criativo sem fim. Sua vida de famoso, com apartamento chique em Manhattan, Range Rover novinha e festas envolta de celebridades e gente importante está prestes a se acabar, se ele não entregar um livro novo.

Desesperado, ele recorre a um velho e querido amigo, Harry Quebert, um grande escritor, cujo best-seller "As Origens do Mal" foi um dos livros mais vendidos na segunda metade do século passado, e que fora também professor de Marcus na Universidade. Harry o convida para passar uma temporada em sua casa, em Aurora, New Hampshire, uma bela mansão de frente para o mar que poderá ajudá-lo a recuperar a criatividade. Sem sucesso, ele retorna a Nova York e algum tempo depois recebe um telefone de Harry: ele está preso. Foi encontrada uma ossada humana no quintal de Harry e se trata de Nola Kellergan, uma garota de apenas 15 anos com quem Harry confessou ter vivido um romance, trinta anos antes. Juntamente ao corpo de Nola encontrava-se também o original de "As Origens do Mal". Dessa forma, Harry Quebert se tornou o principal suspeito do assassinato da garota.

"Escrever significa que você é capaz de sentir mais intensamente que os outros e em seguida transmitir o que sentiu. Escrever é permitir que seus leitores enxerguem o que às vezes é invisível para eles."

Marcus tem certeza da inocência do amigo e está disposto a qualquer coisa para livrá-lo das acusações. Para tanto, muda-se para Aurora, na casa de Harry e começa a fazer suas próprias investigações, pedindo a ele que lhe contasse toda a história de amor dos dois, entrevistando os moradores da pequena cidade, linkando pistas e percebendo detalhes importantíssimos numa corrida contra o tempo. Ele descobre que Nola era uma garota adorável e querida por todos dali, mas também descobre outras coisas sobre a menina que a transformam ora em vítima, ora em vilã. No entanto, alguém na cidadezinha não está nada  contente com o atrevimento do escritor em tentar descobrir a verdade e começa a ameaçá-lo com bilhetes anônimos. Seja quem for, está se sentindo ameaçado por Marcus, e deve ser a mesma pessoa que assassinou Nola. Com todos os elementos de sua investigação, Marcus decide escrever um livro  "O Caso de Harry Quebert".


“Um golpe de mestre. Uma história de
suspense cheia de ritmo, mudanças
de curso e várias camadas que, como
uma boneca russa, se encaixam
perfeitamente. De forma extraordinária,
Dicker alterna períodos e vozes
(relatórios policiais, entrevistas, excertos
de outros livros) e explora os Estados
Unidos em todos os seus excessos
– midiáticos, literários, religiosos –,
enquanto questiona o que é ser um
escritor.”
L’EXPRESS (FRANÇA)
Os capítulos são divididos de acordo com os conselhos literários que Harry dava a Marcus quando este era seu aluno. São 31 conselhos e, portanto, 30 capítulos + Epílogo, começando pelo número 30 mesmo. Achei essa ideia super interessante! E a edição do livro está impecável!

 A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert é um livro muito bem planejado e desenvolvido; cheio de reviravoltas do começo ao fim, é de deixar qualquer um sem fôlego! Quando pensamos que tudo está se resolvendo outro fato extraordinário acontece e o mistério se faz presente de novo. Com personagens realistas e uma trama extremamente bem intricada, todos os fatos são muito bem amarrados e conectados; não há pontas soltas, de forma que todo o emaranhado de situações se alinhe perfeitamente.

Toda a história nos é contada através de relatórios policiais, trechos de "As Origens do mal", depoimentos dos moradores e suspeitos e, principalmente, pelas gravações que Harry faz a Marcus contando toda a história de amor com Nola. É um livro cheio de detalhes e Jöel Dicker fez um trabalho impressionante ao dar vida a essa obra. Tenho apenas uma ressalva: não gostei da narrativa. Não sei se foi a tradução, mas achei os diálogos muito superficiais e até mesmo infantis em alguns momentos, além de ter achado muito bobinho e infantil o jeito como foram narradas algumas partes da história de amor de Harry e Nola. Em suma, achei a narrativa bem pobrinha; poderia ter uma qualidade literária muuuuuito maior. Esse foi o único motivo pelo qual não favoritei (com muita dor no coração) esse livro, mas eu AMEI a história, li tudo em 3 dias. Leitura superrrr recomendada!

Sobre o autor: "Jöel Dicker nasceu em Genebra, na Suíça, em 1985, filho de pai professor de francês e mãe bibliotecária. Seu primeiro romance, Les derniers jours de nos pères, que também será publicado pela Intrínseca, conta a pouco conhecida história de uma unidade do Serviço de Inteligência Britânico encarregada de treinar a resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial e lhe rendeu, em 2010, o Prêmio dos Escritores de Genebra. A verdade sobre o caso Harry Quebert, seu segundo romance, publicado na França quando Joël tinha apenas vinte e sete anos, tornou-se rapidamente um best-seller mundial, alçando o autor ao posto de fenômeno literário."

* * *

Quem quiser me acompanhar no Skoob é só clicar aqui.

Beijos com carinho! ♥

9 de julho de 2014

[Resenha] Iluminadas - Lauren Beukes

 Título Original: The Shining Girls 
Editora: Intrínseca
Páginas: 320
Gênero: Suspense 
Ano: 2014
ISBN: 978-85-8057-503-3
Minha Nota: EstrelasEstrelasEstrelasEstrelasEstrelas
Onde Comprar: SUBMARINO | SARAIVA | CULTURA
 

Iluminadas chamou a minha atenção logo de cara pela capa e pelo título, e quando li a sinopse tive certeza de que seria uma leitura muito boa e diferente, mas... minhas expectativas não foram nem de longe alcançadas. Vem comigo que eu explico.

Harper Curtis é um andarilho na Chicago de 1931 que, durante uma fuga da polícia, tem sua vida completamente transformada por forças que ninguém poderia explicar: ele é misteriosamente guiado até uma casa abandonada que, a princípio, parece um lugar comum, mas que esconde um segredo inacreditável. Ao adentrá-la, Harper se depara com um ambiente todo mobiliado e muito bem decorado, convidativo, como se a Casa aguardasse sua chegada. E toda vez em que abre a porta, é levado para uma época completamente diferente - a Casa é um portal que viaja no tempo. Aos poucos ele se dá conta de que a Casa tem vontades próprias e que ele deverá cumpri-las e, mais do que isso, de que ele está sendo controlado por ela.

O protagonista é, então, transformado em um poderosíssimo serial killer conduzido pela Casa, com a missão de matar as garotas iluminadas, que estão espalhadas entre os anos de 1931 e 1993. Para tanto, ele normalmente faz uma visita a cada uma de suas vítimas quando ainda são crianças, dando-lhes objetos estranhos (que ele encontra dentro do próprio portal) e dizendo-lhes que ele logo voltará. Depois de alguns anos, quando as meninas já são jovens adultas, ele de fato volta e as mata brutalmente, em um ritual horrível e cruel que o enche de prazer, fazendo com que muitas vezes se masturbe ao se lembrar do assassinato.

Mas Harper começa a perder o controle de suas ações brincando de passear pelo século XX e tomando decisões imprudentes. Esse pecado acaba lhe custando muito caro, pois Kirby Mazrachi, uma de suas garotas, sobreviveu, por muito pouco, ao ataque brutal e alguns anos depois está decidida a fazer com que o homem que tentou matá-la pague por esse crime. A moça contará com a ajuda do ex-repórter policial Dan Velasquez (com quem rola um romance meio desnecessário, já que é muito pouco explorado), que cobrira seu caso. Kirby faz uma busca profunda e encontra evidências em que ninguém poderia acreditar, tendo, por isso, muita dificuldade em associar as pistas decifradas, já que elas são muito desconexas umas das outras, pelo fato de Harper ter o tempo a seu favor. Passado, presente e futuro se misturam de uma maneira inexplicável e somente no final do livro algumas perguntas são respondidas.

Achei interessante o fato de a personalidade do serial killer ser bastante explorada ao longo do livro. Os capítulos são iniciados com a data em que serão narrados e com o nome do personagem cuja visão será analisada. São divididos entre Harper, que aparece na maior parte dos capítulos, suas vítimas, Kirby, Dan e um viciado que observa os passos do assassino e que será de grande importância para o desfecho. Desse modo, explora-se bastante a atmosfera psicológica do protagonista, através do discurso indireto livre (narrador-observador onisciente).

O enredo tem tudo para dar um grande livro, certo? Certo. Mas, ao meu ver, a autora cometeu falhas incontáveis e irreparáveis. Para começar, eu simplesmente não conseguia pegar o ritmo da leitura, o que foi acontecer somente pouco depois da metade do livro (demorei mais de um mês para finalizar as 300 páginas). Também não gostei da narrativa da Lauren Beukes; não sei identificar o quê, mas alguma coisa estava me incomodando muito. Além disso, as outras vítimas do Harper são muito pouco exploradas, conhecemos pouquíssimo de suas histórias e logo em seguida elas já são assassinadas. E o que mais contribuiu para a minha decepção é o fato de que algumas coisas são muito confusas e pouco ou nada esclarecidas; várias pontas ficaram sem amarras.

Só comecei a gostar do livro quando chegou na páginas 250, mais ou menos; o final, vale dizer, é realmente muito bom e até me surpreendeu, mas mesmo assim não sei se compensa as demais páginas e a falta de habilidade da autora no decorrer da obra. Eu recomendo a leitura sim, pois acho que outras pessoas podem ter uma visão completamente diferente da minha, e pode até ser que eu tenha sido muito influenciada pela grande dificuldade em adentrar no ritmo do livro. Por isso, recomendo que leiam a resenha feita no blog Biblioteca do Terror, pois a visão ali tratada é o oposto da minha; discordo totalmente da opinião do resenhista! hehe

Sobre a autora: Lauren Beukes nasceu na África do Sul e é autora de romances e graphic novels premiados. Atua também como roteirista de televisão, documentarista e, ocasionalmente, jornalista. Iluminadas é seu quarto livro.




                     * * *

Quem quiser me seguir no Skoob é só clicar aqui.

Beijos com carinho!